sábado, julho 20, 2024
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Fortaleza | Crítica: Dentro de um jogo de descobertas, alegrias e dores, o preconceito ainda marca e machuca

E pude conferir Fortaleza, peça dirigida por Daniel Dias da Silva, e só posso dizer que saí da sessão completamente tocado pelo texto de José Pedro Peter.

A peça está em cartaz no Espaço ABU, no Rio de Janeiro, e ela mostra com muita sensibilidade a relação de amizade e força entre dois jovens, e como as descobertas sexuais acabam implicando nesse relacionamento.

Fortaleza
Crédito: Instagram / Roberto Cardoso

PH, de Carlos Marinho, é confuso, tenta ser forte, e se esconde em uma cortina, enquanto Bruno, de Peter, a seu modo traz uma força e alegria que contagia, mesmo que ninguém o entenda, ou se esforce para isso, tirando PH claro.

As escolhas de idas e vindas entre o presente preocupado e doloroso de PH, e o passado alegre e cheio de descobertas ao lado de seu melhor amigo, dá um tom muito angustiante, na busca de entender o fim dessa relação. É chocante logo no começo tentar buscar o motivo da morte de um amigo, e é ainda mais quando vamos entendendo uma parte de culpa.

Fortaleza nos conecta a um passado de descobertas, brincadeiras, e muitas emoções, ao mesmo tempo que começa a mudar as relações e a trazer novas camadas para cima de jovens, que querem ser aceitos e precisam se adequar a uma bolha. PH e Bruno não entendem o que sentem, em como se encaixam e onde devem se encaixar.

Fortaleza
Crédito: Instagram / Roberto Cardoso

Preconceitos, raiva, bullying, tudo começa a pesar na relação dos dois, até culminar em desejo, carinho, e medo. Medo imposto, medo sufocante, e nesse medo é que palavras cortam.

Because maybe
You’re gonna be the one that saves me
And after all
You’re my wonderwall

Gostei muito da escolha de Wonderwall, de Oasis, e também de nos colocar em Cazuza uma dor da perda para a comunidade LGBTQIA+, onde o HIV ainda era uma névoa e um estigma a ser carregado.

Fortaleza
Crédito: Instagram / Roberto Cardoso

No fim, quem é nossa Fortaleza? Quem é nossa Wonderwall?

O Espaço ABU é pequeno, cativante, e com o que tem disponível, Daniel consegue colocar a iluminação e a cenografia perfeita na arena, para nos colocar dentro da peça, mas principalmente, dentro dessa amizade conturbada entre PH e Bruno.

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